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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Tradição onde branco não entra

Dando início a semana na qual Maçambiques comemoram a Festa do Rosário, disponibilizo aqui matéria provavelmente escrita no ano de 2001, mas que acredito ter a encontrado em 2002. Há tempos a procurava em meus guardados e somente neste final de semana, coincidentemente, foi que a localizei.
Ainda no início de minhas pesquisas, sem metodologia, princípios básicos e/ou regras fundamentais, não preocupei-me com algumas informações e cometi a ingênua gafe em não anotar o nome do(s) jornalista(s) responsável(is) pela matéria, tampouco a data real de sua publicação. O jornal, pelo que me lembro, era o Diário Catarinense. Ctrl C Ctrl V + delete foram as ferramentas necessárias para a edição/colagem desta matéria em word e que agora scaneio, transformo em imagem e colo aqui.

obs.: na época, destaquei alguns trechos e tentarei comentá-los agora - se ainda lembrar os reais porquês desses grifos.


"o último grupo de maçambique do Rio Grande do Sul nem sabe direito qual a origem do ritual"

Na época, o grupo ainda não havia passado pela ruptura acontecia em meados dos anos 2000. Hoje, são dois os grupos de maçambique: Maçambique de Osório e Maçambique de Morro Alto. Embora os dois possuam legitimidade histórica, é o grupo de Osório que manteve a continuidade da tradição, sem parar, enquanto o outro passou por intervenção e incentivo da Fundação Palmares para que "ressurgisse".

De qualquer forma, é difícil dizer que este era o último grupo de maçambique do Rio Grande do Sul pois, provavelmente, sempre foi o único. Acredito sim na existência de vários grupos de congadas no Rio Grande do Sul, feito os Quicumbis e os Ensaios de Promessa, sendo "maçambique" a forma como este grupo em específico ficou conhecido.

A origem do ritual se perde no tempo. Talvez, para os que fazem o maçambique, os maçambiqueiros e a comunidade que os abriga, saber desta origem nem importe, pois o que prevalece é a fé em Nossa Senhora do Rosário e a necessidade de continuar o que os seus antigos já faziam.

"durante a festa de Nossa Senhora do Rosário, no segundo domingo de Outubro"

Nesta última década, o que era criteriosamente parte de um calendário (o segundo final de semana de Outubro), passou a variar em virtude de diversos fatores, impostos pela Igreja e prefeitura da cidade, mesmo que ainda se priorize e se mantenha o mês de Outubro. Ao longo da história dos Maçambiques, as datas em que realizam suas comemorações já mudaram algumas vezes.

"nem mesmo os próprios maçambiques sabem bem de onde veio a tradição, qual sua importância e quem eles próprios são".

E precisam? Existe realmente necessidade em saber da sua tradição quando se tem tanto apego, apreço e respeito por sua história e daqueles que os antecederam? Mas, mesmo assim, boa parte de seus integrantes sabem sim da sua história. São os mais velhos que a contam e reproduzem para suas famílias e integrantes mais jovens. E eles a ressignificam, sempre de acordo com o tempo e progresso. É importante dizer também que talvez eles desconheçam a história real da criação do grupo e das congadas no Brasil como um todo, mas o mito da criação é o que em muitas vezes talvez seja mais significativo.

"Mas aqui branco não entra" (trecho não destacado no texto)

É este recorte de fala de Severina Dias, Rainha Ginga do Maçambique de Osório, que dá título a matéria. Uma péssima escolha, pois isolado do texto ele parece um tanto radical e preconceituoso.

De fato, o Maçambique de Osório é uma tradição de matriz africana e preceitos católicos, na qual apenas a Rainha, sua pajem e a alfares da bandeira são mulheres, todas negras. Dançantes, tamboreiros, capitães de espada, todos homens, todos negros. Nos últimos anos, por aproximação e afeto, a presença de dançantes "mais claros" (no caso, um único jovem) se tornou constante, mesmo sendo fato raro.


Logo no primeiro parágrafo da imagem acima, fragmentos do mito de criação do Maçambique.



terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Rainha Ginga - Memória e identidade maçambiqueira

Excelente texto, não por menos encontrado em uma data tão complexa quanto este dia de hoje, 20 de Setembro. Depois de anos vivênciando e acompanhando os maçambiques, eis que este é o mais esclarecedor de todos os registros com os quais tive contato e que também já me propus em escrever.

Uma visão tão coesa, detalhista e íntima como essa só poderia ser escrita por alguém do próprio grupo, o que neste texto acontece. Escrito por Francisca Dias, presidente da Associação Religiosa e Cultural Maçambique de Osório e filha da Rainha Ginga Severina Dias, o texto é uma ótima recordação sobre as origens do Maçambique e as trajetórias de suas rainhas gingas. Encontrado em Cantadores do Litoral.

***

A RAINHA GINGA - MEMÓRIA E IDENTIDADE MAÇAMBIQUEIRA
Artigo escrito para publicação no Livro "Raízes de Capão da Canoa".

Francisca Dias
Coordenadora do Grupo Religioso e Cultural
Maçambique de Osório

O Maçambique é o maior elo de ligação fundamental com a vida da comunidade negra, situada nos municípios de Osório, Maquiné, Santo Antônio da Patrulha, Palmares do Sul, Terra de Areia e adjacências, no Litoral Norte, no Estado do Rio Grande do Sul. Com o ritual religioso e afro-católico, quando são expressas as devoções aos santos católicos, a comunidade negra de Morro Alto participa das festas que exaltam, agradecem e celebram a fé em torno de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.

Dentre as personagens desta cerimônia religiosa, sobretudo, da dimensão que incorpora as heranças dos escravos africanos e brasileiros, a principal é a Rainha Ginga. Por meio das ações, dos pensamentos e da memória advinda dos ancestrais africanos, as rainhas gingas perpetuaram a cultura, os valores e a identidade da comunidade negra de Osório. Os reis e as rainhas africanos, muitas vezes, eram também sacerdotes que não somente foram reverenciados como intermediários entre os homens, mas como deuses eles mesmos. Os reis representam a renovação dos valores comunitários da história de um povo, desde os tempos imemoriais e históricos.

Nzinga Mbandi Ngola, rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI-XVII (1587-1663), foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia, dando origem a um imaginário cultural na diáspora tal como no folclore brasileiro com o nome de Ginga. A rainha Nzinga Mbandi, filha do rei de Angola, formou um pequeno exército, a fim de combater e conquistar o reino de seu irmão Ngola Mbandi, que havia matado seu filho por interesse de terras e sucessão. A rainha conseguiu reunir várias tribos e fez acordo com os portugueses, em troca do seu apoio, convertendo-se, estrategicamente, à religião católica, quando recebeu o nome de Ana de Souza. Mais tarde, renegou a fé cristã, embora tenha contribuindo para a difusão e a afirmação do catolicismo na África. Não obstante, expulsou aos portugueses invasores de suas terras.

A história desta soberana negra chegou ao Brasil, sobretudo por meio das embaixadas nas Congadas, dos cortejos e dos bailados do Maçambique. Em Osório, as diversas rainhas Gingas com o pálio real de cor azul; com as sucessivas coroas que acrescentavam aos seus corpos físicos uma capacidade transcendental de unificar uma comunidade étnico-cultural afro-brasileira para além das suas dimensões geográfico-territorial. Em verdade, fica enfatizado o caráter político, uma vez que elas agregam um valor emocional cuja unidade é a pátria, as tribos e as nações africanas. A coroa que elas portam está profundamente associada à identidade de grupo da comunidade negra, consolidada pela rede de parentesco consangüíneo e ritual.

A primeira Rainha Ginga, da qual se obteve algum registro, foi dona Maria Lima, que era chamada, popularmente, de "dona Maria Gorda". Ela era parteira, tinha uma personalidade forte e teria reinado entre 1922 e 1935. Sua sucessora foi Maria Vergilina da qual nada foi referido pelos mais velhos, além do nome, e que teria reinado entre 1935 e 1950.

A rainha seguinte, por sucessão, foi Maria Tereza Joaquina de Oliveira que reinou , entre 1950 e 1978. De acordo com muitos dos antigos maçambiqueiros, Maria Tereza era uma figura altiva, imponente e carismática. O maior orgulho da rainha Ginga Maria Teresa Joaquina de Oliveira era o fato de ter sido coroada pelo cardeal Dom Vicente Scherer. Ela afirmou o seguinte: "O Dom Vicente Scherer me disse, 'tu é quem manda, tu que governa e eles não podem fazer nada sem tu. Tu és quem ficou no lugar da africana. Eles botaram a guerra com a africana porque a festa da africana era mais bonita do que as dos brancos. Os brancos faziam a festa, negro não fazia. Mas a africana tinha Nossa Senhora do Rosário em casa [...] então a rainha guerreou e venceu a guerra como tu (Maria Tereza) venceste esta coroa hoje'". Ao final das sábias palavras, o nobre arcebispo colocou a coroa na cabeça de Maria Tereza. Apesar da idade avançada, demonstrava muita lucidez e grande capacidade de julgamento. No passado, no âmbito da comunidade negra de Morro Alto, as rainhas tinham o poder delegado pelos integrantes de resolver todos os conflitos, podendo até mesmo ordenar a prisão daquele que tivesse sido responsabilizado por alguma transgressão. Ela indicava os festeiros para a festa de Nossa Senhora do Rosário. Esta rainha veio a falecer com 111 anos.

Tomásia Sérgio de Oliveira, natural de Maquiné, herdou o cargo de sua mãe, Maria Tereza. Esta rainha tinha um temperamento muito diferente de sua antecessora, uma vez que era tímida e simples. No entanto, ao desfilar com o manto azul e sua coroa prateada, desfilava silenciosa e majestosa, ao lado do rei, e sempre acompanhada de sua pajem. Ela reinou entre 1978 e 1992. Quando a rainha Ginga Maria Tereza faleceu, em 1992, suas filhas abriram mão do cargo, o qual caberia a qualquer uma delas na linha sucessória. Dona Maria de Oliveira, uma das suas filhas, em 1986, já havia declarado o seguinte: "Isso é coisa dos antigos, dos mais velhos. Mesmo assim, eu não quero passar o trabalho que a mãe passa".

Atualmente, a rainha Ginga é dona Severina Maria Francisca Dias, também chamada pelos parentes maçambiqueiros de "Sibirina". Severina Dias foi coroada, na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em 1992, pelo padre Aloysio, cujo reinado mantém até hoje. Ela nasceu em Morro Alto. Com 20 anos, Dona Severina Dias trabalhou como cozinheira, por dois anos, na antiga Rodoviária de Osório, sob a administração do Sr. Alexandre Renda, pai do atual prefeito de Osório Sr. Eduardo Renda. Depois, mudou-se para Osório, em 1970, trabalhou em muitos bares e prestou serviços domésticos a muitas famílias. É funcionária pública aposentada, pela antiga CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações).

Com a condição de ter sido pajem das duas rainhas anteriores, Maria Teresa, desde 1971; e Tomázia, de 1978 até 1992. No tempo de Tomázia, de quem era prima, ela foi muito ativa, uma vez que cuidava da recepção aos convidados, além de representar a rainha Ginga em muitos "pagamentos de promessas". A rainha Ginga dona Severina Dias possui um amplo saber das rezas, dos cantos do Maçambique. Por meio da intercessão de Nossa Senhora do Rosário, ela acolhe os pedidos por milagres e curas; acolhe os agradecimentos e distribui as bênçãos aos fiéis católicos do Maçambique.

Por muitos anos, Severina realizou muitos partos domésticos, tanto em Morro Alto como em Osório. Em tais ocasiões, portava uma estatueta que representava a imagem da Nossa Senhora do Bom Parto. Aliás, quadros com imagens sacras é o que não faltam em sua residência, tais com de Santa Luzia, Santa Catarina, São Jorge e Santa Bárbara, atestando o seu grande fervor católico. Domina um amplo conhecimento acerca de ervas medicinais, por isso, muitas pessoas recorrem a ela, valendo-se da sua sabedoria. Ela é, indubitavelmente, a detentora da memória do sagrado e de grande parte da história da comunidade negra do Morro Alto e dos ofícios religiosos do Maçambique.

Certamente na passagem do tempo, na reafirmação e na construção da memória, ocorrem continuidades, rupturas, descontinuidades e reinvenções. Para finalizar, vejamos como ela reproduz a narrativa que consolida o mito de fundação da festa do Maçambique, e que vem sendo repassada de rainha Ginga para rainha Ginga:

"Eu sei que a falecida Maria Teresa contava assim: que isso aí, os brancos, eram o senhor. O senhor...os negros não festejavam, os negros era só pra trabalhar e os brancos tinham a festa...foram à festa e tinha uma menina, decerto era filha de algum abençoado.! Diz que foi e disse assim: - 'Meu pai, por que os brancos se divertem e os negros não? Os coitadinhos puxando carreta de cana, carreta de lenha, tocado a guiada, tocado a prego, eles não se divertem? E...:- 'Não, minha filha; é assim: os negros é prá trabalhar.' E ela: - 'Não, pode ser assim!' [...] Aí ela foi e disse assim: -'Vou fazer uma festa, meu pai.' Ele: - 'Quem sabe? Será que vai dar certo?' - 'Vou experimentar! Aí fez, a primeira festa, né? A primeira festa, não foi logo avante, não deu. Ela logo em seguida disse pro pai: - 'Eu vou tornar a fazer outra. Os nossos negros todos, vai se divertir ou não vai se divertir?' Adonde ela fez o maçambique. Decerto o outro santo...decerto não aceitou né, aí, ela puxou a Nossa senhora do Rosário. E continuou o maçambique."

Ela contou, ainda, de que a primeira festa teria dado certo , uma vez que havia um negro no palanque. Este estava condenado à morte, porém Nossa Senhora do Rosário mandou um enviado, a fim de convidá-lo para ser festeiro da Santa. Nesse meio tempo, o carrasco ironizava e ria do escravo, quando alguém indicou a chegada de um mensageiro. O enviado questionou das razões para matar uma pessoa e mandou parar. A seguir, chamou por aquele que estava condenado à morte. Solto o escravo, foi pedido a ele que lesse a carta, ao que ele retrucou, dizendo que não sabia ler. O homem pediu licença para ler a carta. E, assim, continuou a narração a rainha Ginga Severina:

"Aí diz que ele foi e disse: - 'Pode ler, pode ler, pra todo mundo ver.' Decerto pra ler alto, né? Aí ele leu, diz - 'Olha, Nossa Senhora do Rosário tá te convidando pra tu ser festeiro dela e tu fazer a festa dela.' Aí soltou o outro e deu liberdade pra ele na hora, ele deu a liberdade. Daquele dia em diante ele não ia trabalhar mais pra eles, né, ele ia trabalhar só pra fazer a festa da Nossa Senhora e queria uma festa boa! Então adonde que os negros tiveram festa foi devido à Nossa Senhora do Rosário."

É por estas razões expostas acima e devido às múltiplas memórias acumuladas, é que as rainhas gingas são o cerne da vida do maçambique. Devendo, por isso, serem admiradas e respeitadas.

BIBLIOGRAFIA

BRANCO, Estelita de Aguiar et. Al. Maçambique - Coroação de reis em Osório, Comissão Gaúcha do Folclore, Porto Alegre, RS, 1999;
BARCELLOS, Daisy et. Al. Comunidade Negra de Morro Alto - Historicidade, Identidade e Territorialidade, Ufrgs Editora, Porto Alegre, RS, 2004;
GUANDONIN, Manoil Vitório. Maçambique em Osório, Palestrina, Capão da Canoa, RS, Janeiro, 1986;
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória., Mazza Edições/ Perspectiva, Belo Horizonte, MG, 1997;
MOURA, Maria da Glória da Veiga. Ritmo e Ancestralidade na Força dos Tambores Negros - O currículo invisível da festa, PPG em Educação, Usp, São Paulo, SP, 1997;
SERRANO
SILVA, Marina Raymundo da. Viajando Pelo Município, Associação dos Estudos Culturais, AEC, Osório, RS, 1999;
SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil Escravista - História da Festa de Coroação de Rei Congo, Humanitas, Ufmg, Belo Horizonte, MG, 2002;


Maçambiques - Todos os Diretos Reservados - Francisca Dias


por Lucas Luz para FÉsta Produções & Pesquisas em Culturas Populares e Tradicionais.
Foram respeitados a grafia e os temros originais do texto. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

MUITO ALÉM DO CHIMARRÃO

(publicado originalmente em 2002)

Quando ainda começava o gosto pelas curiosidades e rabiscava meus primeiros textos sobre cultura popular, escrevi uma pequena série - interrompida por mim mesmo e sabe-se lá por qual motivo - sobre a cultura popular gaúcha, de acordo com o meu conhecimento na época. Naquele momento recém e ainda estudante de jornalismo, estes textos foram publicados no finado site baseado e organizado por gentes da cidade de São Paulo, Entrecantos. Com o tempo, e sem minha permissão - o que também nunca foi problema - estes mesmos textos foram reproduzidos em diversos sites internet afora, colecionando, inclusive, alguns momentos engraçados sobre a utilização das fotos que por mim foram mal batidas na época. Não fossem essas imagens, alguns bons encontros talvez nunca tivessem ocorrido, ou seriam adiados pelas não coincidências. Bisbilhotando a rede na noite dessas, os encontrei novamente, publicados no site do CENTRO DE TRADIÇÕES GAÚCHAS DE NITERÓI. Pedindo licença para mim mesmo, seguem abaixo, mantendo as mesmas escritas, idéias, erros, imagens (neste site apenas uma imagem foi publicada), estes dois textos, escritos há quase nove anos atrás.

ESPECIAL RIO GRANDE DO SUL - PARTE I - 27/06/02
MUITO ALÉM DO CHIMARRÃO

Vivo em um estado que, assim como todas estas outras mini-nações que formam nosso mapa, é reflexo direto e subjetivo do que é nossa nação. Mestiçagem atrás de mestiçagem. Ou, como poetizei, mestiçagen, assim, com "n" mesmo, já que todos nossos gens, nossas raízes, estão por aí, todas perdidas, embrião pra novas diversidades. Mas hoje tenho apenas o compromisso de escrever sobre a cultura popular de meu estado, aquilo que se ousou chamar de folclore - e é - e que defasou muitas outras manifestações populares também existentes pelas bandas de cá. Ah, não falei ainda, escrevo do extremo sul do país, Porto Alegre, terra onde em qualquer esquina encontra-se alguém com a cuia e a erva pro chimarrão - pelo menos é o que já li em várias revistas de turismo, apesar de não concordar com tal proposição.

Mas então, falando sobre aquilo que realmente interessa, vamos a peleia. Quando comecei a desenvolver minhas pesquisas sobre folclore, me deparei com a questão: como são vistas as tradições do Rio Grande do Sul fora do meu estado? Chimarrão, bombacha, churrasco, bailes e CTGs... Pois bem. Tristeza minha foi descobrir que até mesmo para pessoas que viveram suas vidas inteiras aqui no sul, essa é a única realidade transparecida. Alemães, italianos, castelhanos e tantas outras etnias. Influências cruciais, referenciais básicos para esse entendimento. Mas e a cultura negra? Pois é, ela vive e sobrevive, por mais ínfimo que seja esse conhecimento pela imensa massa que aqui consome qualquer tipo de informação. 

Tanto na região de Pelotas, onde muitas charqueadas foram palco de atrocidades na época da escravidão, ou em Osório, onde quilombos foram instalados nesse mesmo período, assim como em várias outras partes do estado, a cultura negra faz-se muito presente, instigando a curiosidade do inconsciente popular. Muitas pessoas se espantam ao saber que aqui no sul existe a cultura negra, e que, assim como na Bahia, ela também exerce papel fundamental para entendimento da alma do popular, das raízes, da questão do chão, da mãe.

Tambor genuinamente gaúcho, oriundo dos negros de Pelotas, o sopapo, assim como bateu forte no passado, hoje, através dessas formas modernas de reciclagem de idéias de alguns músicos, volta a fazer sua história. Batendo forte no amor e no favor. A alma de um povo, a alma do tambor. De grandes proporções, em formato de cone, o sopapo é tocado através de tapas em sua pele de couro, e assim como um dia foi batido forte por Giba Giba, hoje sua história continua, em inserções musicais que passam pelo rock, pelo funk, samba e por aí vai...

Da cidade de Osório, a 90 quilômetros de Porto Alegre, no litoral norte do estado, temos o Maçambique (não confundir com o Moçambique de Minas Gerais, embora apresentem semelhanças). Festa exclusivamente para negros, até permite-se que brancos participem, mas só se for em caso de promessa para Nossa Senhora do Rosário. Mulheres ainda que participem da festa, têm sua participação reduzida, mas sempre marcando presença dentro do contexto que a festa promove. Muitos dos participantes do último grupo de maçambique do estado nem sequer sabem a origem do ritual, o que é realmente um fato agravante. 

Espero em breve poder dissertar mais sobre o maçambique, muito além do que essa introdução foi capaz (ou incapaz) de dizer. Subsídios estão sendo buscados, novos recursos, entrevistas, fotos... Tudo isso para que a grande massa entenda: a cultura do Rio Grande do sul vai além do que se acredita por aí. Essa introdução serviu apenas para dar uma excitada, fomentar, instigar a curiosidade. Aliás, não só as manifestações populares do sul se resumem ao que é transparecido por aí, mas, com certeza, todas as formas de manifestação popular de várias partes do país. Agora, um ponto onde não podemos cair na ingenuidade é o seguinte: o folclore não é meu, o folclore não é teu. É meu. É teu. É das esquinas do mundo. É teu e é meu e etc...Vai por aí!

***

ESPECIAL RIO GRANDE DO SUL - PARTE II - 03/12/02
MUITO ALÉM DO CHIMARRÃO
A ginga de Osório

Manifestação afro-católica dos negros trazidos da África e que na região de Osório estabeleceram raízes, o maçambique é a representação da cerimônia de coroação do Rei Congo e da Rainha Ginga, esta, com poder superior ao rei.

Em uma época que Osório ainda se chamava Villa de Serra, e servia como ponto de passagem para os tropeiros que levavam e traziam gado entre São Paulo e Montevidéu, os negros que para cá foram trazidos para trabalhar nos canaviais dançavam e cantavam o maçambique, remetendo ao tempo em que ainda viviam no continente africano.

Ainda hoje, embora um pouco deturpado pela ação do tempo, o folguedo de maçambique resiste as mazelas tecnológicas, industriais e cosmopolitas no município de Osório, com o único grupo de maçambique do estado, o Grupo Maçambiques. No passado, houveram ternos de maçambique nos municípios de Palmares, Morro Alto, Cidreira, Tapes, Tavares e até mesmo na zona rural da capital gaúcha, Porto Alegre.

Nos primórdios, o auto dos maçambiques durava aproximadamente uma semana, e possuía caráter dramático, teatral. Hoje, tem duração de apenas quatro dias, começando suas festividades na segunda quinta-feira do mês de Outubro e terminando no domingo seguinte. Como todas as manifestações populares, pejorativamente chamadas folclore, o maçambique, com o passar dos anos, perdeu muito de seus elementos.

O Rei e a Rainha

Em um antigo reino em Angola, na África, no século XVII, a rainha Nginga Nbandi (Ginga) possuía um dos mais fortes exércitos da região. Temendo uma possível guerra, e sabendo possuir um exército menos preparado e mais fraco que o do reino de Angola, o Rei de Congo (não se sabe exatamente qual seu nome), propôs para a rainha Nginga que se casassem, assim unificando seus exércitos e os fortalecendo, para assim, poder conquistar mais terras africanas e derrotando os exércitos de outros reinos. Como condição para a concretização de sua união, a rainha Nginga impôs apenas uma condição: ela é quem deveria ter a última palavra, ou seja, ela seria a soberana no reino.

Lutando contra a colonização portuguesa, Nginga Nbandi e seu exército venceram o governador português João Corrêa de Souza, no ano de 1621. Nginga faleceu no ano de 1681, católica, batizada como Ana de Souza.

Toda essa história é representada durante os quatro dias do Auto dos Maçambiques. O ápice da cerimônia é quando o rei e a rainha são coroados pelo pároco da igreja onde se realizam as missas da festividade. Após serem coroados, dançantes, ao som dos tambores maçambiqueiros, cantam em meio ao salão da igreja:

“Tá c’roado, bem c’roado
Nosso grande imperador
Tá com a c’roa na cabeça
C’roa de nosso Senhor"

Capitães de espadas abrindo  a passagem de Rei, Rainha, dançantes e  donos da casa onde a promesse está sendo paga
As duas varas de dançantes – a azul representando a rainha, e a vermelha representando o rei – simulam, em sua dança, a guerra entre os reinos de Angola e Congo. Rei e rainha são tratados com fidalguia, sendo reverenciados e respeitados por todos os integrantes do grupo.

Quando incorporando o personagem da rainha Ginga, Severina Francisca Dias, 79 anos, demonstra ser uma pessoa rude, com o olhar denotando sua autoridade. Quando tira a coroa de rainha, Severina torna-se uma senhora doce, simpática.

Severina começou como pajen da lendária rainha falecida Maria Tereza, que se dizia consciente de encarnar a nobreza que veio com os seus ancestrais africanos, sabendo do dever de preservar tradições herdadas. Rainha Ginga do Maçambique há vinte anos, Severina herdou a coroa de sua prima Tomázia, esta, sucessora de Maria Tereza, que faleceu com mais de 100 anos de idade.

O rei de Congo, Sebastião Francisco Antônio, 73 anos, ao contrário do que muitos pensam, não é marido de Severina, mas sim seu irmão. Para ocupar o cargo de rei, é preciso indicação por parte das pessoas com maiores cargos dentro do grupo, e, para o cargo de rainha, a sucessão se dá através da hereditariedade, a rainha passa para sua filha. Em casos especiais, como o de Tomázia e Severina, quem sucede a rainha é alguém próximo, neste caso, a irmã. 
Algumas fotos registradas em 2002 aqui.
Mais fotos aqui (registradas em 2010).