Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Maçambique de Osório e a Festa do Rosário

Texto escrito e publicado originalmente no portal de notícias web Sul21 em 23/10/2011


O Maçambique de Osório e a Festa do Rosário



Osório, terra dos ventos. Terra litorânea da passagem de soslaio pras praias nortes gaúchas, tão mal faladas mas tão preenchidas quando do calor do verão. Terra das águas das lagoas. Terra dos Maçambiques. E são eles os responsáveis, provavelmente, pelos primeiros registros sobre o município, quando este ainda se chamava “Vila da Serra” e, após, “Conceição do Arroio”. Registros estes elaborados por Antônio Stenzel Filho, em livro chamado “A Vila da Serra – Conceição do Arroio”, escrito ainda no século XIX, e “As Congadas do Município de Osório”, publicado no ano de 1945 e escrito pelo professor e folclorista Dante de Laytano.

O maçambique é uma das variações  gaúcha das congadas (existem, ainda, os Ensaios de Promessa de Quicumbi, nas cidades de Mostardas e Tavares, e o Quicumbi, no Rincão dos Pretos, em Rio Pardo).  As congadas são uma tradição presente em todo o território brasileiro e que possuem origens e influências nas festas de coroação de reis negros praticadas durante o período colonial, assim como breves influências portuguesas e, dependendo do local, também indígenas. Em comum, a devoção aos santos católicos Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Nossa Senhora da Penha e Santa Efigênia. Em um difícil resumo, o Maçambique de Osório é uma congada gaúcha, tradição afro-católica praticada por negros devotos a Nossa Senhora do Rosário e que através de seus cantos, tambores e danças pagam promessa para graças atendidas pela santa.


Grupo secular, o Maçambique tradicionalmente possui dois importantes momentos ao longo do ano: a Festa de São Benedito, comemorada no segundo final de semana de maio, próximo ao dia 13, e a Festa do Rosário, no segundo final de semana do mês de Outubro, mas atualmente deslocada para qualquer um dos outros finais de semana deste mesmo mês, conforme a disponibilidade da igreja local e de acordo com o calendário da prefeitura. Nos últimos anos, a Festa de São Benedito, realizada no distrito de Aguapés, próximo a sede da cidade de Osório, não aconteceu.

Ao longo de sua existência e prática, o maçambique foi realizado em diferentes datas do calendário. Antigamente, conforme relatado por Dante de Laytano, o maçambique acontecia no período de 04 à 06 de janeiro, dentro do Ciclo de Reis, quando se comemora os Três Reis Magos. Este período também é um dos importantes momentos datados das culturas tradicionais e populares brasileiras, sendo celebrado já desde o dia 24 de dezembro, véspera de Natal. O progresso e sua dinâmica são agentes fundamentais para estas mudanças que, se não bem assimiladas e encaradas, podem prejudicar significativamente a manutenção destas práticas e ciências populares.

Festa vem perdendo tradições negras


Nos últimos dez anos, intervalo de tempo em que vivencio o maçambique e suas gentes, o grupo e a comunidade do Caravággio, onde a maioria dos integrantes reside, é possível perceber mudanças na festa e no grupo, fundamentadas em tantas conversas com os próprios e também em leituras de materiais anteriormente produzidos por terceiros. Permanecem a fé em Nossa Senhora do Rosário e seus símbolos, assim como os ritos estabelecidos e orgânicos da prática do maçambique.



Organizada por um casal de festeiros, escolhidos na festa do ano anterior - e que nos últimos anos sempre gera polêmica, em virtude de imposições da igreja que mudou a tradição da escolha feita através de sorteio no copo, quando igreja, maçambiques e casal de festeiros atual indicam cada um um nome –, a Festa do Rosário atualmente parece desprender-se das tradições negras católicas do maçambique, estabelecendo-se como um evento de cunho social organizado por uma pretensa elite negra local não autêntica. Triste saber que esses mesmos festeiros, durante o decorrer do ano, não se importam e não se misturam com os negros maçambiqueiros, mantenedores e responsáveis por esta tradição.

Este ano, graças a insistência de Francisca Dias, presidente da Associação Cultural e Religiosa Maçambique de Osório e filha de Severina Dias, Rainha Ginga, a prefeitura fez o repasse da verba destinada no orçamento anual do município diretamente para o grupo, o que amenizou em pouco o tanto de contradições e equívocos dos últimos anos gerados pela igreja, casal de festeiros e poder público. Assim, os maçambiqueiros tiveram um pouco mais de controle sobre a festa em questão, podendo, inclusive, se alimentar de forma melhor, sem precisar grandes esforços.


A Festa do Rosário tem início na quinta-feira, quando o mastro com a bandeira de Nossa Senhora é erguido ao lado da igreja. Nesse dia, é realizada a primeira das missas com a presença dos maçambiques. Nela, não há nenhum rito diferente. Sua dinâmica não sofre interferência alguma com a presença do grupo, exceto pelo fato da coroação dos reis e alguns cantos do grupo, específicos para o momento.

A sexta-feira inicia-se com a mesa de doces, reverência para a rainha. Neste ano, não ocorreram pagamentos de promessa previamente acertados. Apenas sábado pela noite, quando o grupo foi surpreendido, já no salão paroquial, onde executam parte de suas danças, se concentram, tem o reinado de seus reis montado e as refeições e bailes acontecem. Em todos os quatro dias são realizadas missas, sempre respeitando a mesma lógica cotidiana católica, com pouca interferência do maçambique e sua tradição. No domingo, pela manhã, a missa é extendida com a procissão da imagem de Nossa Senhora do Rosário, quando maçambiques e fiéis percorrem o entorno da praça, defronte a igreja, acompanhando a imagem no andor, cantando, tocando tambor e dançando em seu respeito. Pela tarde, é a procissão de arriamento do mastro que parece não queimar, mesmo com a quentura do asfalto, os pés descalços dos dançantes do maçambique.



Com a possibilidade de um maior gerenciamento e zelo pela festa, a programação da tarde de domingo foi pensada e proposta pelo próprio Maçambique. De Porto Alegre, os grupos Maracatu Truvão (grupo de percussão e dança porto alegrense que pesquisa, divulga e executa o ritmo do maracatu de baque virado, tradicional de Pernambuco) e Afro-Sul Odomodê, com seus meninos e meninas tocando e dançando, fizeram com que a festa, naquele momento, fosse mais inteira. Satisfação plena dos protagonistas, insatisfeitos com o leilão pós-almoço anualmente proposto pelos festeiros e que, certamente, não beneficia o grupo e seus interesses.

Com certeza, o grupo passa por diversos problemas, esquecidos ali naqueles momentos de gozo e devoção. É um grupo com origens quilombola (Morro Alto), com integrantes em sua maior parte residentes na periferia de Osório, negros trabalhadores da construção civil, indústrias, sub-empregos. Condições estas que com o passar dos anos resultam em mudanças no grupo e em suas configurações, na Festa do Rosário e em sua dinâmica. É o progresso e a inevitável aceitação do tempo que os persegue. O que fica, é “ir pela Santa”, como ouvi de um jovem dançante, e a frenética vontade em “dar uns pulos”, quando dançam em respeito aos seus reis e sua virgem de devoção.


Para saber um pouco mais sobre as congadas gaúchas acesse www.buscandocoroa.com.br 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ensaio de Promessa - por Marisa Guedes, historiadora


Mais um dos tão poucos materiais sobre as congadas gaúchas, segue texto sobre o Ensaio de Promessa do município de Mostardas. Escrito pela historiadora Marisa Guedes, o material está, originalmente, disponível em seu blog, dedicado exclusivamente ao município de Mostardas e sua cultura e tradições.

***
Ensaio de Promessa no Município de Mostardas
Marisa Oliveira Guedes
Mostardas 2006



Aos homens e mulheres negras que construíram esta terra.

Apresentação
 


Ao chegar no município de Mostardas, justamente no ano do Centenário da Abolição em 1988, deparei-me com uma das manifestações mais ricas do sentimento religioso afro-brasileiro no litoral do Rio Grande do Sul, o Ensaio de Promessa.

A origem e significado da palavra Ensaio perdeu-se no tempo e na memória. Contudo o Ensaio de Promessa que consiste em pagamento de promessas feitas por pessoas devotas à Nossa Senhora do Rosário, não importando a cor ou classe social e realizado pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Homens Pretos de Mostardas, é muito similar as congadas realizadas no resto do Brasil.

Trabalhando na Fundação Casa da Cultura de Mostardas, tive a oportunidade de acompanhar estudar estes descendentes das Irmandades de Homens Pretos ou irmandades do Rosário de Mostardas, desde os tempos da escravidão. Desta forma as Irmandades do Rosário que se manifestam com o Ensaio de Promessa na nossa região são os grupos das localidades de Teixeiras, do Rincão do Cristóvão Pereira e Casca no município de Mostardas e uma Irmandade no município de Tavares.

Neste trabalho estarei abordando a origem da devoção ao Rosário, das Irmandades do Rosário ao redor do mundo e as manifestações de Ensaio de Promessa em Mostardas.


Origem da Devoção ao Rosário


A devoção à Nossa Senhora do Rosário veio para o Brasil com os portugueses e seus escravos em 1500. Contudo ela é bem anterior a sua chegada nas terras de “além mar”.


No século IV um eremita cristão chamado Paulo rezava 300 vezes o Pai-Nosso contando 300 pedrinhas, no deserto ao norte da África. Em 496 quando o cristianismo chega aos francos, o rei Clóvis é batizado e com ele os nobres e o povo. Da mesma forma que os bantos do Congo, da Guiné e da Angola, na África.

Nos séculos XII e XIII passa a ser costume entre os confrades rezar as orações contando pedrinhas. Segundo uma lenda, Nossa Senhora teria ensinado a oração do rosário a São Domingos de Gusmão (1170–1221). Nos séculos seguintes manteve-se a oração do rosário e no século XV, os frades dominicanos introduziram e divulgaram a devoção do rosário de Maria e Irmandades de Nossa Senhora do Rosário .


As Irmandades do Rosário ao redor do mundo


As Irmandades do Rosário que ficaram conhecidas por Irmandades de Homens Pretos têm sua fundação mais antiga na Alemanha, na cidade de Düsseldorf, com o nome de Irmandade das Alegrias de Nossa Senhora, para Irmãos e Irmãs do Rosário (brancos), em 1409, e em 1481 já contava com cem mil membros.


Para entendermos como esta passou a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Homens Pretos é importante conhecermos a história do cristianismo na Guiné. Quando em 1444 realizou-se a primeira venda pública de escravos em Lagos (Algave), na presença do Infante D. Henrique, deu-se o impulso que faltava para o tráfico de escravos da Guiné e do Cabo Verde.

Nos anos seguintes a exploração continuava e, em 1452, com a aprovação do Papa Nicolau V, quando escreveu ao Rei:

[...] nós lhe outorgamos pelos presentes documentos, com nossa autoridade apostólica plena e livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades e reduzir essas pessoas à escravidão perpétua, [...]

Consolidou-se a prática da escravidão de negros da África.

Com o batismo do rei do Congo, em Mbanza, na África em 1491, este se recusava a entregar como escravos, homens livres e só aceitava como escravos os capturados na guerra. Opôs-se também ao comércio dos cristãos.

Apenas quatro anos antes da chegada dos portugueses no Brasil é fundada a primeira Irmandade do Rosário dos Escravos em Lisboa, foi em 14/07/1496, com a Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos . O alvará concedia-lhes o direito de recolher esmolas nas caravelas que iam para a Mina e os rios da Guiné. Uma Igreja do Rosário é construída por volta de 1500 na Ilha de Santiago, na cidade Velha, no Cabo Verde. E em 1526 é fundada a primeira Irmandade de N. Sra. Do Rosário na África, na Ilha de São Tomé.

No Brasil a primeira Irmandade do Rosário dos Pretos que se tem notícia foi a de 1552 em Goiana (PE), onde muitos escravos eram de Guiné.

Quase cem anos depois as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos proliferam no Brasil: Em 1639 na cidade do Rio e Janeiro(RJ); Em 1674 em Recife(PE); Em 1682, Belém(PA); Em 1686 em Salvador(BA); Em 1708 em São João Del Rei(MG), em 1713 em Cachoeira do Campo(MG), em 1713 em Sabará(MG), em1715 em Ouro Preto(MG), em 1728 em Serra (MG) e 1782 em Paracatu(MG); Em 1711 em São Paulo(SP); Em 1771 em Cairo (RN) e 1754 em Viamão(RS), 1773 em Mostardas (RS) e 1774 em Rio Pardo(RS).

Todas estas Irmandades mantém ainda hoje sua devoção à Nossa Senhora do Rosário com seus festejos.

Irmandade do Rosário de Mostardas
 


No contexto da história do Rio Grande do Sul, o município de Mostardas desempenhou papel importante como sendo caminho para a Colônia do Sacramento, fundada em 1680. O primeiro assentamento português na área foi por volta de 1737 quando da construção do Forte Jesus – Maria – José em Rio Grande. Com os militares vieram seus escravos.

Em 1742 foi criada a Guarda de Mostardas e a Fazenda Real do Bojurú para criação de mulas para abastecer as tropas imperiais. A mão de obra escrava oriunda de São Paulo, Minas Gerais e Laguna foram utilizadas em grande escala no município e região.

Com a chegada dos casais açorianos foi criada em 1763 a Freguesia São Luis de Mostardas. Dez anos depois a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos já existia no Município, mas somente em 12 de julho de 1804 os irmãos pedem confirmação de compromisso a Dom João VI de Portugal.

O compromisso, aprovado pela Igreja e pelo Estado era uma espécie de estatuto interno que regia as irmandades. Era composto por uma série de artigos que definiam suas obrigações, o perfil dos associados e os direitos e deveres destes. Constava também a obrigação de mandar rezar sete missas pelas almas de cada irmão falecido pertencente à irmandade.

Existia muita tensão entre os representantes Eclesiásticos e as Irmandades Negras. Segundo Alisson Eugênio (2002), que pesquisou as Irmandades Mineiras do século XVIII, o Clero advertia constantemente as irmandades pela desobediência em não cumprir a contento as obrigações de rezar missas às almas dos irmãos falecidos, pois o recurso era utilizado para realização de festas em homenagem a Nossa Senhora. Alem disto, as festas consumiam recursos excessivos das associações na decoração da capela, músicos e foguetório entre outros.

As Irmandades do Rosário que se manifestam desde os tempos da escravidão com o Ensaio de Promessa na nossa região são os grupos das localidades de Teixeiras, do Rincão do Cristóvão Pereira e Casca no município de Mostardas e uma Irmandade no município de Tavares.

Atualmente as irmandades que realizam o Ensaio em Mostardas são os grupos de Teixeiras gerenciados pelo senhor Orlando Cardoso Duarte e do Rincão do Cristóvão Pereira pelo senhor Domingos Francelino de Souza(foto 1). O grupo da localidade de Casca não se realiza mais os Ensaios porque seu gerente faleceu e não deixou ninguém no seu lugar.

Na década de 1960 encontramos referência no Livro Tombo da Igreja de Mostardas (p. 6) sobre a atuação da Irmandade de “morenos”, quando o Padre Simão Moser, que dirigiu a Paróquia entre 1951 a 1982 havia proibido as manifestações de Ensaio de Promessa. Segundo ele havia suspendido a Festa de Nossa Senhora do Rosário “devido aos abusos que haviam se introduzido, culminando com excessos de beber”. A festa de 1963 só foi autorizada com as seguintes condições: “1 - O responsável pela festa seria o Padre Vigário, o festeiro só poderia organizá-la de acordo com tudo e por tudo com o Padre. Os tradicionais Ensaios não seriam permitidos devido aos grandes abusos que se deram lugar. A promessa do ensaio se substituía pela promessa de uma Santa Missa. 2 - Os donativos arrecadados, descontada a despesa módica da banda e jaquetas, seriam entregues ao Vigário ou comissão de obras da Igreja. 3 – A festa seria celebrada dentro do mês de outubro” (p.6).

A partir do ano de 1982 quando o Padre Simão faleceu, foram retomados os Ensaios de Promessa com as antigas tradições.

A Irmandade era formada pelos dançantes, em torno de quatorze a dezoito homens e pelo Gerente, que é o líder do grupo. É ele quem combina com a pessoa que fez a promessa, chamado dono da promessa, a data para a realização do evento, normalmente de sábado para domingo. Seus participantes, todos homens negros e membros da Irmandade, não recebem remuneração, realizam o Ensaio por devoção a Nossa Senhora. O Gerente tradicionalmente o mais velho, escolhe seu sucessor e o treina para comandar o grupo após sua morte.

A promessa não tem tempo determinado para ser paga, segundo seu Domingos, quando a promessa é urgente é paga mais rápido, como podemos comprovar pelo relato da senhora Aventina Teixeira de Souza, nascida em 1914, esposa de seu Domingos Francelino de Souza:

Quando tinha oito anos, em 1922, aconteceu um grande incêndio na chácara do vizinho dos meus pais. Toda chácara foi perdida, plantação e galpões. Quando o fogo estava aproximadamente a três metros da casa, o dono ajoelhou-se diante do fogo e pediu a Nossa Senhora do Rosário que salvasse a mesma e que em pagamento realizaria um Ensaio em oito dias. O fogo cessou e a casa não foi queimada. Após oito dias foi realizado o Ensaio de Promessa.

Em outros casos como da senhora Hilda Chaves da Silva, hoje com noventa e dois anos, a promessa foi paga quarenta anos depois. Por volta de 1960 nasceram as filhas gêmeas de dona Hilda, a Maria Francisca e Maria Conceição. Quando Maria Francisca tinha cinco anos estava fraca e muito doente. Seu marido fez a promessa de que pagaria cinco Ensaios a Nossa Senhora do Rosário e a menina se salvou. Tinham sido pagos quatro ensaios até o ano de 2000 e em 2004, trinta e nove anos depois, dona Hilda, viúva, e acompanhada das filhas gêmeas, do filho Nadir e seus netos Gilmar, Carlos e Marcelo, paga a promessa, completando o quinto Ensaio, com a satisfação destes fazerem parte da Irmandade do Rosário. Quando o dono da promessa morre antes de cumprir o prometido algum membro da família tem o dever de pagar a promessa.

A Irmandade gerenciada por seu Domingos, que dançou nesta ocasião, era formada por homens com idades entre 58 anos e 15 anos. A média de idade era na sua maioria entre 50 e 58 anos.


Ensaio de Promessa

 
No local onde vai ser paga a promessa, é montado um altar contendo várias imagens de santos de devoção do dono da promessa, duas folhas de palma, (foto 2) normalmente costuradas em um lençol fixado na parede, velas e quadros da santa. Na mesa é utilizada uma toalha branca de renda e vasos com flores. Em lugar de destaque uma caixa de esmolas com a imagem da Nossa Senhora, que é trazida em procissão pelo dono da promessa do quintal da casa até o altar. O altar fica no cômodo maior da casa para que todos possam assistir ao Ensaio.


Outra forma de arrumar o altar, com Santos (foto 3) e fotos da família dona da promessa. A caixa com imagem da Nossa Senhora do Rosário tem lugar de destaque. 

Seu Domingos relata que antigamente muito “povo” assistia aos Ensaios. Hoje, entretanto fica mais restrito à família (foto 4). 

As danças executadas durante o Ensaio são embaixadas, a de rítimo mais lento é chamada de marcha (foto 5) e a mais ligeira, fogo. Através da dança e entoação de cânticos a promessa é paga. São os mais velhos que ensinam os ritmos e a seqüência dos cânticos aos irmãos mais novos (foto 6). Não há treinamento fora do Ensaio, tudo é aprendido na hora do pagamento da promessa. As orações são as mesmas do tempo dos escravos e são passadas de geração a geração. Só é considerada promessa paga se forem entoados os cânticos de entrada, da meia noite e de despedida. O gerente tem total controle sobre os irmãos, e estes o atendem em todos os momentos, mesmo sobre comportamentos indesejados. Se necessário ele tem autoridade para retirar da casa um membro do grupo que não esteja se comportando adequadamente.

Antigamente, as vestimentas eram brancas, composta de calça, camisa, avental ou saiote colorido por cima da calça e gorro, também chamado capacete, enfeitado com fitas coloridas. Hoje, no grupo do Rincão do Cristóvão Pereira, cujo gerente é seu Domingos, cada um se veste de acordo com sua vontade, normalmente calça escura e camisa branca e sobre a cabeça um gorro com fitas. Já o grupo do senhor Orlando, mantém a tradição e todos usam roupas brancas. O avental não faz mais parte da vestimenta desde a década de 20.

O papel das mulheres no ritual é cuidar da preparação da comida, receber os convidados, rezar o terço enquanto os dançantes descansam, organizar o altar e confeccionar as roupas.

Ao dono da promessa cabe o provimento da alimentação aos participantes da irmandade e aos convidados.

O Ensaio realiza-se da seguinte forma: no dia marcado, no início da noite, os dançantes em número de seis a oito pares, reúnem-se e vão entoando orações até a casa do dono da promessa ou ao lugar escolhido por este. As danças acontecem do pôr do sol ao amanhecer, normalmente das 18 às 6horas, pois, segundo a tradição oral, os negros não tinham autorização para dançar durante o dia.

Na frente, do cortejo vai um dos homens com um tambor (foto 7) e outro com um pandeiro. O gerente leva nas mãos os guias ou reco-recos, espécie de pauzinhos de bambu que são batidos um contra o outro produzindo um som típico. Assim, dançando e tocando chegam à casa do dono da promessa.

O dono da casa, que espera os dançantes junto com a família (foto 8), tem nas mãos uma vela acesa. Nesta hora sua esposa tem permissão de participar da procissão, levando a caixa de esmolas nas mãos. Os dançantes são convidados a entrar, o que fazem entoando canções, batendo tambor e tocando pandeiro e guias. A Santa, que é levada por uma das mulheres, é então colocada em um altar armado em uma mesa em lugar de destaque. O dono da promessa convida as pessoas para a reza, as crianças participam das orações (foto 9).

Pela meia noite é hora do terço, quando os membros do grupo aproveitam para descansar e jantar. O terço hoje é rezado pelas mulheres, mas antigamente quem rezava era o gerente da Irmandade.

Esta oração e as danças continuam a noite toda (foto 10) e, a cada hora e meia descansam por quinze minutos. Normalmente, participam ativamente de cinco a seis pares de irmãos, dois pares ficam descansando e revezam-se a cada intervalo.

Pouco antes do amanhecer é servido café. No nascer do dia, sempre cantando e dançando, saúdam a estrela D’alva e encerra-se o Ensaio. O gerente pergunta ao dono da casa se a promessa foi paga a contento. Somente com a afirmativa deste é considerada paga, caso contrário a Irmandade deve repetir o Ensaio. Cansadíssimos, os dançantes se despedem fazendo o mesmo trajeto da entrada (foto 11).

Quando o Ensaio termina todos os membros da Irmandade em fila beijam a imagem da santa pedindo proteção e bênçãos, tocando com a imagem, que está fixada na caixa de esmolas, na testa por três vezes. Neste momento é recolhida a esmola para a Santa (foto 12). 

A prática do Ensaio de Promessa no município de Mostardas caiu em desuso a partir de 1970 aproximadamente.

Um dos motivos foi o custo que se tornou proibitivo numa época de poucos recursos. O pagamento de uma promessa envolve o deslocamento e alimentação do grupo de dançantes e convidados, em torno de mais ou menos cem pessoas, o que se torna muito oneroso.

Em Mostardas, a prática do Ensaio estava tradicionalmente vinculada às famílias negras rurais e comunidades descendentes de escravos onde as famílias mantinham sua comunidade fechada. Estas comunidades tinham como característica a agricultura tradicional com o emprego de muitos filhos na lavoura. Outra característica era a proximidade dos parentes e familiares com as mesmas tradições e costumes.

Com o deslocamento dos moradores das comunidades rurais para a sede do município, em busca de melhores condições de vida, perdeu-se o contato entre os membros das irmandades. A agricultura tradicional familiar com muitos filhos trabalhando na lavoura e com parentes nas proximidades, era fator de agregação por laços de atividades, família e tradições em comum.

Com a desvalorização da atividade agrícola, houve uma dispersão dos membros familiares, redução do número de filhos frente a realidade econômica e desvinculação dos costumes antigos.

O Ensaio que, por certo tempo, esteve em desuso por falta de interesse e novos participantes, está sendo mais valorizado atualmente.

Em 1989, a Fundação Casa da Cultura de Mostardas forneceu aos dançantes indumentárias adequadas e pessoas mais jovens passaram a valorizar esta atividade.

O reconhecimento por parte do Poder Público, das Comunidades Remanescentes de Quilombos de Casca e Teixeiras no município de Mostardas em 2001 trouxe um novo impulso à manutenção da cultura e resgate da religiosidade tradicional dos escravos.

Este fator foi determinante para a valorização dos Remanescentes de Quilombos no sentido de preservar suas raízes, bem como ponto de referência para pesquisadores de Universidades sobre o assunto. 

Bibliografia

ACOMPANHAMENTO e gravação em fitas VHS dos Ensaios de Promessa realizados em Mostardas nos dias 31/01/2004, 22/06/2005 e 14/07/2006.

ARQUIVO Histórico do Rio Grande do Sul. Anais. Porto Alegre: Corag. v.1, 1977.
BALENO, Ilídio. Subsídios para a História do Cabo Verde: as necessidades das fontes locais através dos vestígios materiais, 1989.

BERWANGER, Ana Regina. Catálogo de documentos manuscritos avulsos referentes à capitania do Rio Grande do Sul existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa. Porto Alegre: IFCH/UFRGS/CORAG, 2001.

BUNSE, Heinrich Adam Wilheim. São Jose do Norte: aspectos lingüístico-etnográficos do antigo município. 2.ed. Porto Alegre, Mercado Aberto/Instituto Estadual do Livro, 1981.

CONFIRMAÇÕES Gerais. Lisboa: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livro 2 1496.


CORD, Marcelo Mac. Identidades Étnicas, Irmandade do Rosário e Rei do Congo: sociabilidades cotidianas recifenses – século XIX. Artigos

EUGÊNIO, Alisson. Tensões entre os Visitadores Eclesiásticos e as Irmandades Negras no Século XVIII Mineiro. Revista Brasileira de História.Vol. 22 nº43. São Paulo. 2002

FORTES, João Borges. O brigadeiro José da Silva Paes e a fundação do Rio Grande. 2. ed. Porto Alegre: Erus/Companhia União de Seguros Gerais. 1980.

_________ . Os casais açorianos: presença lusa na formação do Rio Grande do Sul. 3. ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1999.

_________ . Rio Grande de São Pedro: Povoamento e conquista. 2. ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2001.

LIVRO Tombo da Paróquia de Mostardas. Mostardas: Arquivo da Paróquia São Luis, 1951.

MUACA, Eduardo A. Breve História da Evangelização de Angola: 1491-1991. Lisboa: Secretaria Nacional das Comemorações dos 5 séculos, 1991.

POEL, Frei Francisco Van Der. Congado: origens e identidade. < www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/congadoorigem.htm> acesso em jun.2006.

PRINCÍPIOS da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1952.

RUBERT, Arlindo, História da Igreja no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCR, 1994.

SOUZA, Aventina Teixeira. Entrevista concedida na cidade de Mostardas, RS, dia 22/11/2005.

SOUZA, Domingos Francelino de. Entrevista concedida na cidade de Mostardas, dia 22/11/2005.

por Lucas Luz para FÉsta Produções & Pesquisas em Culturas Populares e Tradicionais.
Foram respeitados a grafia e os temros originais do texto. 
Fotos não localizadas.