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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Maçambique de Osório e a Festa do Rosário

Texto escrito e publicado originalmente no portal de notícias web Sul21 em 23/10/2011


O Maçambique de Osório e a Festa do Rosário



Osório, terra dos ventos. Terra litorânea da passagem de soslaio pras praias nortes gaúchas, tão mal faladas mas tão preenchidas quando do calor do verão. Terra das águas das lagoas. Terra dos Maçambiques. E são eles os responsáveis, provavelmente, pelos primeiros registros sobre o município, quando este ainda se chamava “Vila da Serra” e, após, “Conceição do Arroio”. Registros estes elaborados por Antônio Stenzel Filho, em livro chamado “A Vila da Serra – Conceição do Arroio”, escrito ainda no século XIX, e “As Congadas do Município de Osório”, publicado no ano de 1945 e escrito pelo professor e folclorista Dante de Laytano.

O maçambique é uma das variações  gaúcha das congadas (existem, ainda, os Ensaios de Promessa de Quicumbi, nas cidades de Mostardas e Tavares, e o Quicumbi, no Rincão dos Pretos, em Rio Pardo).  As congadas são uma tradição presente em todo o território brasileiro e que possuem origens e influências nas festas de coroação de reis negros praticadas durante o período colonial, assim como breves influências portuguesas e, dependendo do local, também indígenas. Em comum, a devoção aos santos católicos Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Nossa Senhora da Penha e Santa Efigênia. Em um difícil resumo, o Maçambique de Osório é uma congada gaúcha, tradição afro-católica praticada por negros devotos a Nossa Senhora do Rosário e que através de seus cantos, tambores e danças pagam promessa para graças atendidas pela santa.


Grupo secular, o Maçambique tradicionalmente possui dois importantes momentos ao longo do ano: a Festa de São Benedito, comemorada no segundo final de semana de maio, próximo ao dia 13, e a Festa do Rosário, no segundo final de semana do mês de Outubro, mas atualmente deslocada para qualquer um dos outros finais de semana deste mesmo mês, conforme a disponibilidade da igreja local e de acordo com o calendário da prefeitura. Nos últimos anos, a Festa de São Benedito, realizada no distrito de Aguapés, próximo a sede da cidade de Osório, não aconteceu.

Ao longo de sua existência e prática, o maçambique foi realizado em diferentes datas do calendário. Antigamente, conforme relatado por Dante de Laytano, o maçambique acontecia no período de 04 à 06 de janeiro, dentro do Ciclo de Reis, quando se comemora os Três Reis Magos. Este período também é um dos importantes momentos datados das culturas tradicionais e populares brasileiras, sendo celebrado já desde o dia 24 de dezembro, véspera de Natal. O progresso e sua dinâmica são agentes fundamentais para estas mudanças que, se não bem assimiladas e encaradas, podem prejudicar significativamente a manutenção destas práticas e ciências populares.

Festa vem perdendo tradições negras


Nos últimos dez anos, intervalo de tempo em que vivencio o maçambique e suas gentes, o grupo e a comunidade do Caravággio, onde a maioria dos integrantes reside, é possível perceber mudanças na festa e no grupo, fundamentadas em tantas conversas com os próprios e também em leituras de materiais anteriormente produzidos por terceiros. Permanecem a fé em Nossa Senhora do Rosário e seus símbolos, assim como os ritos estabelecidos e orgânicos da prática do maçambique.



Organizada por um casal de festeiros, escolhidos na festa do ano anterior - e que nos últimos anos sempre gera polêmica, em virtude de imposições da igreja que mudou a tradição da escolha feita através de sorteio no copo, quando igreja, maçambiques e casal de festeiros atual indicam cada um um nome –, a Festa do Rosário atualmente parece desprender-se das tradições negras católicas do maçambique, estabelecendo-se como um evento de cunho social organizado por uma pretensa elite negra local não autêntica. Triste saber que esses mesmos festeiros, durante o decorrer do ano, não se importam e não se misturam com os negros maçambiqueiros, mantenedores e responsáveis por esta tradição.

Este ano, graças a insistência de Francisca Dias, presidente da Associação Cultural e Religiosa Maçambique de Osório e filha de Severina Dias, Rainha Ginga, a prefeitura fez o repasse da verba destinada no orçamento anual do município diretamente para o grupo, o que amenizou em pouco o tanto de contradições e equívocos dos últimos anos gerados pela igreja, casal de festeiros e poder público. Assim, os maçambiqueiros tiveram um pouco mais de controle sobre a festa em questão, podendo, inclusive, se alimentar de forma melhor, sem precisar grandes esforços.


A Festa do Rosário tem início na quinta-feira, quando o mastro com a bandeira de Nossa Senhora é erguido ao lado da igreja. Nesse dia, é realizada a primeira das missas com a presença dos maçambiques. Nela, não há nenhum rito diferente. Sua dinâmica não sofre interferência alguma com a presença do grupo, exceto pelo fato da coroação dos reis e alguns cantos do grupo, específicos para o momento.

A sexta-feira inicia-se com a mesa de doces, reverência para a rainha. Neste ano, não ocorreram pagamentos de promessa previamente acertados. Apenas sábado pela noite, quando o grupo foi surpreendido, já no salão paroquial, onde executam parte de suas danças, se concentram, tem o reinado de seus reis montado e as refeições e bailes acontecem. Em todos os quatro dias são realizadas missas, sempre respeitando a mesma lógica cotidiana católica, com pouca interferência do maçambique e sua tradição. No domingo, pela manhã, a missa é extendida com a procissão da imagem de Nossa Senhora do Rosário, quando maçambiques e fiéis percorrem o entorno da praça, defronte a igreja, acompanhando a imagem no andor, cantando, tocando tambor e dançando em seu respeito. Pela tarde, é a procissão de arriamento do mastro que parece não queimar, mesmo com a quentura do asfalto, os pés descalços dos dançantes do maçambique.



Com a possibilidade de um maior gerenciamento e zelo pela festa, a programação da tarde de domingo foi pensada e proposta pelo próprio Maçambique. De Porto Alegre, os grupos Maracatu Truvão (grupo de percussão e dança porto alegrense que pesquisa, divulga e executa o ritmo do maracatu de baque virado, tradicional de Pernambuco) e Afro-Sul Odomodê, com seus meninos e meninas tocando e dançando, fizeram com que a festa, naquele momento, fosse mais inteira. Satisfação plena dos protagonistas, insatisfeitos com o leilão pós-almoço anualmente proposto pelos festeiros e que, certamente, não beneficia o grupo e seus interesses.

Com certeza, o grupo passa por diversos problemas, esquecidos ali naqueles momentos de gozo e devoção. É um grupo com origens quilombola (Morro Alto), com integrantes em sua maior parte residentes na periferia de Osório, negros trabalhadores da construção civil, indústrias, sub-empregos. Condições estas que com o passar dos anos resultam em mudanças no grupo e em suas configurações, na Festa do Rosário e em sua dinâmica. É o progresso e a inevitável aceitação do tempo que os persegue. O que fica, é “ir pela Santa”, como ouvi de um jovem dançante, e a frenética vontade em “dar uns pulos”, quando dançam em respeito aos seus reis e sua virgem de devoção.


Para saber um pouco mais sobre as congadas gaúchas acesse www.buscandocoroa.com.br 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Conjunto Musical Os Botinhas


A amiga Luciana Conceição, através do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o intento em obter o título de mestre em Desenvolvimento Rural, elaborou a dissertação “RELAÇÕES DE RECIPROCIDADE QUILOMBOLA: PEIXOTO DOS BOTINHAS E CANTÃO DAS LOMBAS – MUNICÍPIO DE VIAMÃO/RS. Nos conhecemos ano passado, quando em um simpósio sobre territórios quilombolas no Rio Grande do Sul - no qual eu não participava, apenas trabalhava em uma atividade paralela – Luciana apresentou trechos de sua dissertação e inevitavelmente falou sobre a antiga prática do quicumbi em um dos territórios vivenciados, estudado e analisado.
De longe escutava atento e curioso, quando esta sua citação me chamou a atenção. Em poucos dias já entrava em contato com ela para que pudesse saber um pouco mais sobre este fato até então inédito para mim. Era um dia quente de janeiro quando fomos até estes quilombos, para que eu pudesse conhecer, in loco, um pouco sobre essa antiga prática e tradição. Atualmente, o grupo de quicumbi do Peixoto dos Botinhas está completamente desativado, sendo algo presente apenas nas memórias dos mais velhos. Os mais jovens, contou Luciana, têm vergonha em dar continuidade a esta importante manifestação da identidade negra local, pois na escola ou em outros momentos de convívio, entre amigos e paqueras,  a gozação é provável, e o funk e pagode são muito melhores aceitos socialmente.
O quicumbi, no quilombo Peixoto dos Botinhas, era realizado pelo conjunto musical “Os Botinhas”, o que já lhe confere uma característica própria, pois era executado por um conjunto musical dedicado em animar bailes, tanto dos brancos quanto dos negros, diferentemente dos grupos de Osório e Morro Alto (maçambique, apenas religioso), e dos Ensaios de Promessa de Tavares e Mostardas. Quando praticavam o quicumbi, dançavam com sinos amarrados em suas pernas – algo semelhante aos guizos e maçacaias dos maçambiques, com a provável mesma intenção e representação – e também com facas. Danças com facas são presentes em várias tradições brasileiras, destacando o maculelê e a dança dos facões praticadas aqui mesmo no Rio Grande do Sul. No interior de São Paulo vários são os grupos que dançam o Moçambique com bastões e sinos nas pernas (paiás), o que traz, também e novamente, a idéia de uma rede e origens cada vez mais comum as congadas brasileiras. Estes bastões, ao longo das evoluções das danças dos moçambiques, são batidos uns contra os outros, representando duelos entre mouros e cristãos.
O conjunto musical d’Os Botinhas praticava também o Terno de Reis, o que nos evoca, outra vez, a dinâmica e versatilidade das congadas do sudeste brasileiro, nas quais é possível encontrar as congadas, (Congada, Moçambique), folia de reis, candombe, jongo. Por lá ouvi que os granjeiros, fazendeiros e estancieiros locais, apesar de possuírem seus próprios ternos de rei, preferiam chamar o terno dos Botinhas, pois este era muito mais bonito e os negros dançavam com muito mais graça e  desenvoltura.
A foto incluída por Luciana em seu trabalho é de uma validade incrível. As vestes d’Os Botinhas (ou as que usam na foto) em muito se assemelham com as dos maçambiques de Osório e quicumbis de Mostardas e Tavares. Não por menos, todos estes territórios estão intimamente ligados (a própria Bacopari, citada no texto), sendo todos eles partes de uma mesma freguesia em tempos de outrora, o que faz, até mesmo, com que relações de parentesco sejam estabelecidas. Curiosa é a presença da gaita (sanfona / acordeom) entre os integrantes do grupo. Agora, resta saber se esta gaita também era usado durante o quicumbi ou apenas para tirar reses e para os bailes.
Retirei o trecho que segue do trabalho de Luciana, sendo este referente ao conjunto musical Os Botinhas. Propositalmente, “começo” este recorte exatamente na parte onde a autora discorre sobre o salão e sua importância social, o que também, suponho, seja um importante signo das manifestações e culturas tradicionais praticadas no Rio Grande do Sul, devido a necessidade temporal de um local fechado para estas práticas.
Aproveitem!

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(...)   Nesse sentido o salão, antecipa a associação quilombola, como cristalização de uma sociabilidade que configura a identidade étnica, como totalizável em uma expressão político-cultural. Suportado por essa sociabilidade festiva, o salão tem grande influência e importância na reconstrução e fortalecimento desses laços. Foi construído sob a intenção de que a comunidade pudesse realizar as festas “deles”. As fronteiras de um “nós” versus “eles” já se constituía sobre a dimensão festiva.

 Embora o conjunto musical “Os Botinhas” fosse convidado para animar também as festas dos granjeiros, mas as fronteiras entre o espaço de sociabilidade interno e externo à comunidade ficaram instituídas até pelo menos a década de 50. Conta-se na comunidade que os negros não podiam entrar em festas de brancos, e cronometram a década de 1950 como data ainda recente, vívida na memória coletiva. Essa proibição os motivou para a construção do Salão, pois tiveram um espaço para dançar, se divertir e poder jogar aos finais de semana. Segundo Nilson, atual responsável pelo Salão, assim como os negros sabiam o seu lugar, os brancos também e não freqüentavam as festas que eram realizadas no Salão Princesa Isabel. Mas com o passar do tempo e com as relações de empregados e patrões, que foram se criando com os granjeiros, fazendeiros e estancieiros essa relação foi se quebrando.

As pessoas dos Botinhas começaram a ser contratadas informalmente para trabalhar em granjas e fazendas, sem carteira assinada. Nas festas realizadas no salão Princesa Isabel os granjeiros mandavam funcionários não negros para observar o comportamento de seus funcionários quilombolas. E Mesmo estes funcionários freqüentando o local, segundo Nilson dono do salão, eles sempre souberam respeitar.

       A comunidade é muito festeira e é muito conhecida pelas boas festas que fazia. Numa visita que realizei em junho de 2009 na casa de uma das viúvas do conjunto musical “Os Botinhas”, foi possível analisar primeiramente a tristeza pela falta do principal músico e cantor. A viúva é chamada por todos de tia Jota e tem uma irmã gêmea. Tia Jota casou com o Bota que foi o precursor do conjunto musical o mesmo também tinha um irmão gêmeo que casou com a irmã da tia Jota, a Preta. O mais curioso de tudo é que são todos primos, nascidos e criados no Capão da Porteira e descentes da escrava Pelônia.
Na casa da tia Jota, a sala é repleta de lembranças das décadas de fama do conjunto musical, fotos dos ternos de reis, das apresentações de quicumbi, das coreografias com facas e dos trajes muito bem alinhados e sinos na barra das calças. Eles aprenderam a dançar em uma festa que foram no Bacopari[1], e de tempos em tempos o grupo do Bacopari participava de bailes nos Botinhas e os dois grupos dançavam.

Com freqüência o assunto em campo eram as festas. Num desses dias, enquanto Seleza fazia a janta, ficamos conversando até tarde sobre os bailes da Dona Joana. Dona Joana é avó materna de “criação” da Tia Chica. Joana gostava muito de fazer bailes e tinha uma casa para morar e outra só pra fazer bailes. A casa de bailes era de chão batido e quem ajudou a construir foram às mulheres da comunidade. Como a casa era de chão batido levantava muita poeira quando o baile começava, mas isso não era empecilho para as pessoas permanecerem dançando ao som do gaiteiro Velúcio, pois o chão era borrifado com água, e o baile seguia.

Já o Terno de reis, Chica não só acompanhava a todas as cerimônias, com seu ex marido que era mestre, como também trabalhava nos preparativos da alimentação "...eu fazia sopa de osso e de guisado". Chica relata que os brancos também participavam das cerimônias religiosas no Cantão, porém os Botinhas não, pois eles tinha o seu próprio grupo de Terno de Reis. Só havia interação entre os ternos quando havia necessidade de ajuda para preparar as refeições que eram distribuídas.

Sobre a esta atuação entre os Ternos de Reis Tia Chica comenta:

 "a irmã da minha avó casou com Estevão que era botinha e foi morar lá, mas quase nunca a gente visitava ela e ela também foi deixando de visitar a gente. O meu marido ficou doente e foi deixando de lado o Terno, aí quando ele morreu acabou tudo mesmo. E a vó eu só fui ver quando ela morreu."  (FRANCISCA – Cantão das Lombas)

     O terno de reis tem grande semelhança com o que era realizado na mesma época de 60 no quilombo da Anastácia[2]. A única diferença é que ao invés de uma dupla cantando e tocando instrumentos com melodias católicas, era o conjunto musical dos Botinhas constituído por aproximadamente 15 pessoas é que comandava as celebrações. E ao término de cada cantoria pelas casas que passavam eram oferecidos café, bolo, cucas, lingüiça e diversas guloseimas. Após passarem em todas as casas da comunidade quilombola a festa começava no Salão Princesa Isabel.

Tia Jota se emociona ao relembrar dos tempos em que os Botinhas cantavam e dançavam. Tempo esse que se foi, mas as lembranças ficaram e as amizades não foram esquecidas.  Neste dia ela fez questão de chamar as filhas e netos para ouvirem o que ela tinha pra contar e fazia questão de dizer que “os verdadeiros Botas” são a família dela. Pois o Beco onde moram leva o nome de Botinhas por conta do conjunto musical que foi criado pelo seu esposo. E aos poucos a casa da Tia Jota foi enchendo de gente, que faltaram até cadeiras. A grande maioria eram os adolescentes, com sede de saber sobre a história do conjunto que originou o beco onde moram.

Figura 4 -  Conjunto “Os Botinhas”  terno de reis. Fonte: (Acervo da associação quilombola Peixoto dos Botinhas)

Só pelo fato do resgate histórico, oral e fotográfico das origens do conjunto musical e o interesse dos mais novos, a todo momento as irmãs Jota e Preta colocavam as crianças no comprometimento de levar a diante as origens dos Botinhas e quem sabe criar um novo grupo. Ao mesmo tempo que se queixavam que os jovens não querem mais saber de nada. Tia Jota dizia: “mas seria um sonho ver o conjunto constituído novamente”.
 
         Os vínculos que foram estreitados pelas redes de parentesco encontram nos bailes um espaço de exercício de sociabilidade, com representações coletivas que atribuem significados e reconhecimento. E faz com que a reconstrução do passado, ou seja, o rememorar os bailes, as perdas, os conflitos, evoca um leque de possibilidades de interpretações dessas marcas. Dessa forma se faz necessário destacar o papel que esses eventos festivos consagram na construção de alteridade desse espaço:

...são as grandes festividades na comunidade que inscrevem a memória coletiva nos corpos. No ritual festivo, tanto nos profanos como nos religiosos, a cadência ritmada dos corpos compassa a liberdade de se possuir um território para percorrer, ocupar, dançar (...) É por essa história incorporada através dos rituais festivos que a unidade da comunidade se faz território. (GOMES DOS ANJOS & ALMEIDA, 2002/2003, p.56)

        Na realização de eventos, como os bailes, eles revezavam com a comunidade Cantão das Lombas, que foi a pioneira em realização de festas. Que são lembradas até hoje como as festas da “dona Joana”. Esse revezamento se dava da seguinte forma: Peixoto dos Botinhas quando realizava as festas no salão, providenciava o conjunto musical, bebida e alimentação (essa alimentação variava, as vezes serviam um grande café com leite, bolos, pães e cucas ou churrasco, galeto, sopão, mocotó) e a comunidade do Cantão era convidada, então não precisavam pagar nada nem contribuir. E dessa forma quando as festas eram realizadas no Cantão das Lombas era recíproco, ou seja, os convidados eram convidados e não precisavam contribuir com bebidas e alimentos, mas o conjunto musical “Os Botinhas” sempre tocava uma ou duas músicas para retribuir o convite. Assim essas festividades trazem elementos de um cotidiano passado que fez parte de um território, fortaleceu os laços de parentesco e está sendo resgatado novamente. (...)


[1] A localidade do Bacopari faz parte do território quilombola de Limoeiro em Palmares do Sul.
[2] O quilombo da Anastácia foi o primeiro a se auto declarar enquanto comunidade remanescente de quilombo em Viamão/RS, está localizado no bairro Estância Grande.

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por Lucas Luz para FÉsta Produções & Pesquisas em Culturas Populares e Tradicionais.
Foram respeitados a grafia e os temros originais do autor.
 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Rainha Ginga - Memória e identidade maçambiqueira

Excelente texto, não por menos encontrado em uma data tão complexa quanto este dia de hoje, 20 de Setembro. Depois de anos vivênciando e acompanhando os maçambiques, eis que este é o mais esclarecedor de todos os registros com os quais tive contato e que também já me propus em escrever.

Uma visão tão coesa, detalhista e íntima como essa só poderia ser escrita por alguém do próprio grupo, o que neste texto acontece. Escrito por Francisca Dias, presidente da Associação Religiosa e Cultural Maçambique de Osório e filha da Rainha Ginga Severina Dias, o texto é uma ótima recordação sobre as origens do Maçambique e as trajetórias de suas rainhas gingas. Encontrado em Cantadores do Litoral.

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A RAINHA GINGA - MEMÓRIA E IDENTIDADE MAÇAMBIQUEIRA
Artigo escrito para publicação no Livro "Raízes de Capão da Canoa".

Francisca Dias
Coordenadora do Grupo Religioso e Cultural
Maçambique de Osório

O Maçambique é o maior elo de ligação fundamental com a vida da comunidade negra, situada nos municípios de Osório, Maquiné, Santo Antônio da Patrulha, Palmares do Sul, Terra de Areia e adjacências, no Litoral Norte, no Estado do Rio Grande do Sul. Com o ritual religioso e afro-católico, quando são expressas as devoções aos santos católicos, a comunidade negra de Morro Alto participa das festas que exaltam, agradecem e celebram a fé em torno de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.

Dentre as personagens desta cerimônia religiosa, sobretudo, da dimensão que incorpora as heranças dos escravos africanos e brasileiros, a principal é a Rainha Ginga. Por meio das ações, dos pensamentos e da memória advinda dos ancestrais africanos, as rainhas gingas perpetuaram a cultura, os valores e a identidade da comunidade negra de Osório. Os reis e as rainhas africanos, muitas vezes, eram também sacerdotes que não somente foram reverenciados como intermediários entre os homens, mas como deuses eles mesmos. Os reis representam a renovação dos valores comunitários da história de um povo, desde os tempos imemoriais e históricos.

Nzinga Mbandi Ngola, rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI-XVII (1587-1663), foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia, dando origem a um imaginário cultural na diáspora tal como no folclore brasileiro com o nome de Ginga. A rainha Nzinga Mbandi, filha do rei de Angola, formou um pequeno exército, a fim de combater e conquistar o reino de seu irmão Ngola Mbandi, que havia matado seu filho por interesse de terras e sucessão. A rainha conseguiu reunir várias tribos e fez acordo com os portugueses, em troca do seu apoio, convertendo-se, estrategicamente, à religião católica, quando recebeu o nome de Ana de Souza. Mais tarde, renegou a fé cristã, embora tenha contribuindo para a difusão e a afirmação do catolicismo na África. Não obstante, expulsou aos portugueses invasores de suas terras.

A história desta soberana negra chegou ao Brasil, sobretudo por meio das embaixadas nas Congadas, dos cortejos e dos bailados do Maçambique. Em Osório, as diversas rainhas Gingas com o pálio real de cor azul; com as sucessivas coroas que acrescentavam aos seus corpos físicos uma capacidade transcendental de unificar uma comunidade étnico-cultural afro-brasileira para além das suas dimensões geográfico-territorial. Em verdade, fica enfatizado o caráter político, uma vez que elas agregam um valor emocional cuja unidade é a pátria, as tribos e as nações africanas. A coroa que elas portam está profundamente associada à identidade de grupo da comunidade negra, consolidada pela rede de parentesco consangüíneo e ritual.

A primeira Rainha Ginga, da qual se obteve algum registro, foi dona Maria Lima, que era chamada, popularmente, de "dona Maria Gorda". Ela era parteira, tinha uma personalidade forte e teria reinado entre 1922 e 1935. Sua sucessora foi Maria Vergilina da qual nada foi referido pelos mais velhos, além do nome, e que teria reinado entre 1935 e 1950.

A rainha seguinte, por sucessão, foi Maria Tereza Joaquina de Oliveira que reinou , entre 1950 e 1978. De acordo com muitos dos antigos maçambiqueiros, Maria Tereza era uma figura altiva, imponente e carismática. O maior orgulho da rainha Ginga Maria Teresa Joaquina de Oliveira era o fato de ter sido coroada pelo cardeal Dom Vicente Scherer. Ela afirmou o seguinte: "O Dom Vicente Scherer me disse, 'tu é quem manda, tu que governa e eles não podem fazer nada sem tu. Tu és quem ficou no lugar da africana. Eles botaram a guerra com a africana porque a festa da africana era mais bonita do que as dos brancos. Os brancos faziam a festa, negro não fazia. Mas a africana tinha Nossa Senhora do Rosário em casa [...] então a rainha guerreou e venceu a guerra como tu (Maria Tereza) venceste esta coroa hoje'". Ao final das sábias palavras, o nobre arcebispo colocou a coroa na cabeça de Maria Tereza. Apesar da idade avançada, demonstrava muita lucidez e grande capacidade de julgamento. No passado, no âmbito da comunidade negra de Morro Alto, as rainhas tinham o poder delegado pelos integrantes de resolver todos os conflitos, podendo até mesmo ordenar a prisão daquele que tivesse sido responsabilizado por alguma transgressão. Ela indicava os festeiros para a festa de Nossa Senhora do Rosário. Esta rainha veio a falecer com 111 anos.

Tomásia Sérgio de Oliveira, natural de Maquiné, herdou o cargo de sua mãe, Maria Tereza. Esta rainha tinha um temperamento muito diferente de sua antecessora, uma vez que era tímida e simples. No entanto, ao desfilar com o manto azul e sua coroa prateada, desfilava silenciosa e majestosa, ao lado do rei, e sempre acompanhada de sua pajem. Ela reinou entre 1978 e 1992. Quando a rainha Ginga Maria Tereza faleceu, em 1992, suas filhas abriram mão do cargo, o qual caberia a qualquer uma delas na linha sucessória. Dona Maria de Oliveira, uma das suas filhas, em 1986, já havia declarado o seguinte: "Isso é coisa dos antigos, dos mais velhos. Mesmo assim, eu não quero passar o trabalho que a mãe passa".

Atualmente, a rainha Ginga é dona Severina Maria Francisca Dias, também chamada pelos parentes maçambiqueiros de "Sibirina". Severina Dias foi coroada, na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em 1992, pelo padre Aloysio, cujo reinado mantém até hoje. Ela nasceu em Morro Alto. Com 20 anos, Dona Severina Dias trabalhou como cozinheira, por dois anos, na antiga Rodoviária de Osório, sob a administração do Sr. Alexandre Renda, pai do atual prefeito de Osório Sr. Eduardo Renda. Depois, mudou-se para Osório, em 1970, trabalhou em muitos bares e prestou serviços domésticos a muitas famílias. É funcionária pública aposentada, pela antiga CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações).

Com a condição de ter sido pajem das duas rainhas anteriores, Maria Teresa, desde 1971; e Tomázia, de 1978 até 1992. No tempo de Tomázia, de quem era prima, ela foi muito ativa, uma vez que cuidava da recepção aos convidados, além de representar a rainha Ginga em muitos "pagamentos de promessas". A rainha Ginga dona Severina Dias possui um amplo saber das rezas, dos cantos do Maçambique. Por meio da intercessão de Nossa Senhora do Rosário, ela acolhe os pedidos por milagres e curas; acolhe os agradecimentos e distribui as bênçãos aos fiéis católicos do Maçambique.

Por muitos anos, Severina realizou muitos partos domésticos, tanto em Morro Alto como em Osório. Em tais ocasiões, portava uma estatueta que representava a imagem da Nossa Senhora do Bom Parto. Aliás, quadros com imagens sacras é o que não faltam em sua residência, tais com de Santa Luzia, Santa Catarina, São Jorge e Santa Bárbara, atestando o seu grande fervor católico. Domina um amplo conhecimento acerca de ervas medicinais, por isso, muitas pessoas recorrem a ela, valendo-se da sua sabedoria. Ela é, indubitavelmente, a detentora da memória do sagrado e de grande parte da história da comunidade negra do Morro Alto e dos ofícios religiosos do Maçambique.

Certamente na passagem do tempo, na reafirmação e na construção da memória, ocorrem continuidades, rupturas, descontinuidades e reinvenções. Para finalizar, vejamos como ela reproduz a narrativa que consolida o mito de fundação da festa do Maçambique, e que vem sendo repassada de rainha Ginga para rainha Ginga:

"Eu sei que a falecida Maria Teresa contava assim: que isso aí, os brancos, eram o senhor. O senhor...os negros não festejavam, os negros era só pra trabalhar e os brancos tinham a festa...foram à festa e tinha uma menina, decerto era filha de algum abençoado.! Diz que foi e disse assim: - 'Meu pai, por que os brancos se divertem e os negros não? Os coitadinhos puxando carreta de cana, carreta de lenha, tocado a guiada, tocado a prego, eles não se divertem? E...:- 'Não, minha filha; é assim: os negros é prá trabalhar.' E ela: - 'Não, pode ser assim!' [...] Aí ela foi e disse assim: -'Vou fazer uma festa, meu pai.' Ele: - 'Quem sabe? Será que vai dar certo?' - 'Vou experimentar! Aí fez, a primeira festa, né? A primeira festa, não foi logo avante, não deu. Ela logo em seguida disse pro pai: - 'Eu vou tornar a fazer outra. Os nossos negros todos, vai se divertir ou não vai se divertir?' Adonde ela fez o maçambique. Decerto o outro santo...decerto não aceitou né, aí, ela puxou a Nossa senhora do Rosário. E continuou o maçambique."

Ela contou, ainda, de que a primeira festa teria dado certo , uma vez que havia um negro no palanque. Este estava condenado à morte, porém Nossa Senhora do Rosário mandou um enviado, a fim de convidá-lo para ser festeiro da Santa. Nesse meio tempo, o carrasco ironizava e ria do escravo, quando alguém indicou a chegada de um mensageiro. O enviado questionou das razões para matar uma pessoa e mandou parar. A seguir, chamou por aquele que estava condenado à morte. Solto o escravo, foi pedido a ele que lesse a carta, ao que ele retrucou, dizendo que não sabia ler. O homem pediu licença para ler a carta. E, assim, continuou a narração a rainha Ginga Severina:

"Aí diz que ele foi e disse: - 'Pode ler, pode ler, pra todo mundo ver.' Decerto pra ler alto, né? Aí ele leu, diz - 'Olha, Nossa Senhora do Rosário tá te convidando pra tu ser festeiro dela e tu fazer a festa dela.' Aí soltou o outro e deu liberdade pra ele na hora, ele deu a liberdade. Daquele dia em diante ele não ia trabalhar mais pra eles, né, ele ia trabalhar só pra fazer a festa da Nossa Senhora e queria uma festa boa! Então adonde que os negros tiveram festa foi devido à Nossa Senhora do Rosário."

É por estas razões expostas acima e devido às múltiplas memórias acumuladas, é que as rainhas gingas são o cerne da vida do maçambique. Devendo, por isso, serem admiradas e respeitadas.

BIBLIOGRAFIA

BRANCO, Estelita de Aguiar et. Al. Maçambique - Coroação de reis em Osório, Comissão Gaúcha do Folclore, Porto Alegre, RS, 1999;
BARCELLOS, Daisy et. Al. Comunidade Negra de Morro Alto - Historicidade, Identidade e Territorialidade, Ufrgs Editora, Porto Alegre, RS, 2004;
GUANDONIN, Manoil Vitório. Maçambique em Osório, Palestrina, Capão da Canoa, RS, Janeiro, 1986;
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória., Mazza Edições/ Perspectiva, Belo Horizonte, MG, 1997;
MOURA, Maria da Glória da Veiga. Ritmo e Ancestralidade na Força dos Tambores Negros - O currículo invisível da festa, PPG em Educação, Usp, São Paulo, SP, 1997;
SERRANO
SILVA, Marina Raymundo da. Viajando Pelo Município, Associação dos Estudos Culturais, AEC, Osório, RS, 1999;
SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil Escravista - História da Festa de Coroação de Rei Congo, Humanitas, Ufmg, Belo Horizonte, MG, 2002;


Maçambiques - Todos os Diretos Reservados - Francisca Dias


por Lucas Luz para FÉsta Produções & Pesquisas em Culturas Populares e Tradicionais.
Foram respeitados a grafia e os temros originais do texto. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As Congadas de Osório (Dante de Laytano, 1945) - parte 02

Sendo uma das principais propostas do projeto Buscando Coroa, pesquisar e encontrar antigos materiais é um tanto trabalhoso. Primeiro, porque muitos destes materiais são praticamente inacessíveis. Segundo, porque quando encontrados nem sempre eles apresentam as condições ideais para manuseio e "degustação" física.  Entretanto, as informações que eles nos trazem, quando interpretadas, são de valor inestimado. É preciso, primeiramente, entender o contexto da época em que o autor dessas informações (livros, artigos, fotos, gravações áudiovisuais, registros em geral, etc.) viveu, pois isso pode dizer um tanto sobre a linguagem por ele abordada e os conceitos trazidos. Também precisamos entender a dificuldade logística, e nisso incluo acesso, transporte e equipamentos, passada para as vivências e registros.

Dante de Laytano nos traz em seu livro "As Congadas de Osório" uma riqueza impressionante de materiais e informações. Não tenho certeza, mas acredito que tenha sido esse o primeiro contato mais expressivo e devidamente registrado em obra. Em 1946, em missão coordenada pelo Centro de Pesquisas Folclóricas da Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, o pesquisador e folclorista carioca Luiz Heitor Côrrea de Oliveira (1905 - 1992),  com apoio do professor Ênio de Freitas e Castro (1911 - 1975), registrou em solo gaúcho, em áudio e fotos, os rituais do BATUQUE de Porto Alegre e do MAÇAMBIQUE DE OSÓRIO. Isso, apenas um ano após o lançamento do livro de Dante de Laytano (mais informações sobre os registros de Luiz Heitor Côrrea aqui).

Estas leituras, aqui especificamente as dos escritos de Dante de Laytano, são por nós avaliadas e nos trazem vários questionamentos, dúvidas e comparações. Acompanhamos as festas de Nossa Senhora do Rosário desde o ano de 2001, há dez anos atrás, e possuímos vasto acerto, aumentado em virtude do apoio da FUNARTE, e conseguimos estabelecer paralelos e entender algumas das várias "mudanças" que o grupo vem passando ao longo de toda a sua trajetória. Nem toda a mudança é satisfatória, às vezes providencial, mas fazem parte da dinâmica de grupos, do ser humando e, não aceitá-las seria negar o tempo.

Recentemente, em conversa na cozinha da casa de Francisca Dias, presidente da Associação Religiosa e Cultural Maçambique de Osório e filha da Rainha Ginga Severina Dias, falávamos exatamente sobre estes processos. Alguns, se dão de forma orgânica. Outros, por imposição, talvez necessidade. Interessa, também, que motivos às vezes não faltam para mudanças. Porém, nem sempre é possível que o grupo aceite estas possíveis mudanças de forma passiva e eles mesmos se tornam resistentes para a manutenção de suas tradições. Os seus integrantes envelhecem, alguns vão morar na capital, os jovens se tornam pais muito cedo, o tecido antes usado já não é mais encontrado.

Nessa mesma ocasião estava presente Faustino Antônio, Chefe de Tambor do Maçambique de Osório e um dos principais articuladores junto aos jovens. Lembro que ele me pediu para que tentasse encontrar em Porto Alegre os quepes militares - da marinha - que eles usam (Faustino e os dois Capitães de Espada), pois eles não tinham mais estes chapéus em posse, apenas um, já desgastado pelo uso. Nas fotos que veremos a seguir, presentes no livro de Dante de Laytano, tais quepes aparecem de forma mínima. Conheço também uma história, e nunca confirmei com eles a veracidade da mesma, que uma das espadas usada atualmente pelos Capitães de Espada foi presenteada por um policial da cidade de Osório. Tal policial, hoje falecido, é pai de uma amiga e nunca tive a oportunidade de conversar com ele sobre.

Oralidade, memórias, envelhecimento, lembranças, mudanças climáticas, industrialização, mecanização das lavouras. Expoentes cruciais para boa parte das mudanças que, inegavelmente, acontecem e são, de certa forma, fundamentais para que os grupos se mantenham vivos e sejam interesse da comunidade ao redor. Entre todas as manifestações e grupos tradicionais por nós já vistos, dá para sentir um orgulho gigante dos jovens que fazem parte do Maçambique de Osório, basicamente como dançantes: eles gostam e se entregam ao grupo quando de suas atividades e realizações. 

Abaixo, algumas das fotos anexas ao livro de Dante de Laytano. Pena não estarem em uma boa qualidade, e as imagens que aqui estão são fotos das fotos, pois o livro que possuímos em nosso acervo já está desgastado, não sendo possível cópias, scaneamento ou algum outro tipo de recurso. Em algumas das fotos utilizamos de tratamento básico digital, para que ao menos seja possível a compreensão do que queremos mostrar.

À porta da igrejam o "Capitão", depois de entrar a bandeira, comanda outros movimentos da Congada.

Espadas cruzadas para entrada da Côrte.

Entrada do rei do Congo.

Essas três primeiras fotos mostram algo que já evidenciamos aqui antes: o cruzar de espadas para a passagem do grupo em entradas/saídas de ambientes fechados. Chamo atenção para os ornamentos de cabeça presente nestas fotos. Os dançantes usando chapéus aparentemente de papel, em formato de coroa - também - e com penas, o que, talvez, seja influência indígena; o quepe; e coroa da Rainha, há muito substituída. Outro dado importante é a presença de roupas escuras, algo hoje impensável, pois a "Roupa da Santa", terminologia correta para o figurino (este um termo pejorativo) deve ser branca.

Um "soldado".

Capitão da Congada.

Na foto mais acima, a pena suspensa no chapéu (alguém sabe como esse tipo de chapéu chama?). Abaixo, um dos Capitães-de-Espada em suas vestes escuras.

Os reis e as rainhas, porta-estandarte, alferes e pagens diante do altar.

O Altar de N. Sra. do Rosário com a coroa do Festeiro e o Guarda.

Devoção de Na. Sra. do Rosário. Os reis e as rainhas e mais dignidades ao lado do altar. Os soldados ou dansantes de pés descalços.

Na primeira foto desta sequência, percebe-se o uso da coroa por parte dos reis e dos festeiros. Por algum motivo talvez só sabido na época, as coroas dos festeiros sugerem uma importância visual maior que a dos reis. Atualmente, somente a Rainha Ginga e o Rei de Congo usam coroas.  Os dançantes, ajoelhados em direção aos reis, já se fazem número equivalente ao dos dias atuais.

O "tambor" acompanha o solista. Repare-se o avental.

O "tambor" inicia a saída do terno.


Cenas das Congadas, em marcha.

Nesta sequência já é possível visualizar o antigo avental usado pelos dançantes, maior do que o atual. Na primeira foto, o tamboreiro, aparentemente não um dançante que naquele momento tocava tambor - embora isso seja feito até os dias atuais - toca tambor também descalço. A última foto traz uma imagem e significância muito importante: a bandeira de Nossa Senhora do Rosário está aberta, o que hoje não acontece e não é aceito pelo grupo.

Rei da Festa (Festeiro).

Rainha da Festa (Festeira).

Festeiros e suas imponentes coroas.

Rainha Ginga.

Rei do Congo.
Reis e suas coroas diminutas, quando comparadas com as dos festeiros.

Evoluções coreográficas.

Evoluções coreográficas.

Evoluções coreográficas.

Nestas fotos é possível analisar algumas evoluções nas coreografias dos dançantes, assim como os outros pontos já levantados anteriormente. Sei, através da oralidade, que a dança, hoje, apresenta algumas leves alterações da forma como era dançada em um passado não tão distante. Dizem, os próprios maçambiqueiros, que a dança hoje está mais acelerada, frenética (termo meu, de acordo com meu entendimento), e que antigamente ela era mais cadenciada, sensual. Neste conjunto de fotos também é possível ver guardas-chuva (sombrinhas), segurados pelos pajens da Rainha Ginga e do Rei de Congo. Este utensílio é muito usado em manifestações do congado brasileiro, inclusive nos maracatus pernambucados, nos quais são mais ricos e cheios de detalhe, sendo chamados por pálio. Tem a função de proteger os reis das possibilidades do tempo, assim como para demonstrar ao público suas realezas e reinados. Nos últimos anos, por falta de pessoas para a função de pajen, não está sendo mais utilizado.

(...)
*todas as legendas conforme originais do livro "As Congadas de Osório" (conforme registro no livro, fotografias por Milton Kroef)

por Lucas Luz para FÉsta Produções & Pesquisas em Culturas Populares e Tradicionais.